Arquivo da categoria ‘Agindo Moderno’

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Intimidade roubada

Abril 25, 2008

- Sempre considerei que fazer compras no supermercado é uma coisa de extrema intimidade, assim como revirar o lixo, espiar pela porta da fechadura.

Afinal, compramos coisas que consumimos no dia-a-dia, na solitude do lar, desde a marca do papel higiênico que usamos até o que assaltamos na geladeira no meio da madrugada.

Estranhamente, ultimamente tenho ido fazer compras no supermercado acompanhado, por pessoas diferentes. Algumas descobertas incríveis, outras cômicas – gente que compra lenços úmidos Pampers para limpar lá em baixo, gente que come papinha de nenê, gente que tem metade da geladeira de red bull.

Mas confesso, aflora um sentimento estranho de estar abrindo as portas de minha intimidade.

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Mr. Scenic

Março 18, 2008

Rio

- Todo dezembro, no Rio de Janeiro, plantam uma árvore grande, pretensiosa e por vezes cafona, bem no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas. Pra alegria daqueles que acreditam que o espírito natalino traz paz e amor, pra felicidade dos ambulantes e pra tristeza dos motorizados.

Num desses dezembros, domingo, 10 da noite, resolvemos – eu e um amigo – ir jantar na Gávea. Trânsito parado, caótico, carros disputando centímetros. Eis que um Renault Scenic, ao fazer a conversão, encosta – de leve – no meu andante. Paramos num posto, desço do carro e vejo um pequeno amasso.

O dono do Scenic, educadamente interessante, deixa a esposa dentro do carro e vem pedir desculpas, e deixa o celular, para depois resolvermos. Obviamente, comentei com o amigo sindicalizado o quão “eu aceito” era o sujeito, e também me lembro dizer que o amassado era pouco significante, que não devemos nos apegar a coisas materiais (blá blá blá) e que provavelmente não ia nem ligar para o sujeito.

Passaram alguns dias e o número estava lá, gravado no meu celular, sem sequer um nome (somente um “Scenic”, para lembrar). Moderno, liguei para dizer que não era para se preocupar e que estava tudo certo, não ia mandar consertar.

Mr. Scenic achou muito educado, e disse que pelo menos a cerveja ficaria por conta dele. “Cerveja não tomo, mas caipirinha de saquê, com morango e limão sempre vai bem.” Mr. Scenic sabia muito bem como fazer um amasso.

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O pobre e o prazer

Março 9, 2008

Xadrez

- Tem gente que diz que pobre que é feliz. Pobre faz churrasquinho com carne de segunda na laje; exibe o saquinho da Mr. Cat que ganhou da patroa como se fosse uma bolsa da LV; pega ônibus, trem e metrô pra pegar uma praia no domingo em Copacabana (claro, levando um isopor com cerveja barata e franguinho preparado na noite anterior). Pobre não faz análise. Pobre infringe todas as regras da modernidade. Mas pobre não tem vergonha de ser feliz.

Ontem fui jantar com um amigo num restaurante-lounge-bar-balada, conhecidíssimo na noite carioca e freqüentado por aqueles que se consideram o crème de la crème de la societé carioca.

Ambiente impecável, garçonete descolada (que aliás, bem notou que era a segunda vez que estivemos lá na semana e que aquele dia era um dia non-sindicato), comida de qualidade, bebida daquelas que um é muito pouco, gente bonita mas muito, MUITO estranha.

Entramos e aquilo parecia um velório. 3 mesas ocupadas (10 pessoas na primeira, 6 na segunda e um casal na terceira). Todos (sem exceçã0) olharam para nós quando entramos, me senti entrando na igreja. Só se ouvia a música ambiente e mais nada. A fisionomia das pessoas era deprimente: nenhum sorriso, nenhuma conversa acalorada, nada. Depois vieram mais 3 casais de turistas (3 homens e 3 mulheres), de Porto Alegre, e sentaram na mesa atrás da nossa. Os homens usavam camisa social xadrez (dentro da calça) e ficaram conversando sobre microinformática. Teve uma hora que eles ouviram o papo animado (impróprio para menores de 18) na nossa mesa e percebi que ficaram o resto da noite como espectadores.

Depois teve baladinha. Uma coisa meio Palais de Versailles, eu diria. Copo na mão, gente se olhando, caras e bocas, um luxo, um glamour, uma coisa, assim… aristocrática. Um ambiente meio sem sentimento, não tinha felicidade naquelas pessoas.

Deve ser uma merda ser pobre, não ter dinheiro pra uns prazeres que a gente cultiva com o tempo, mas ter dinheiro e não ter prazer é pior ainda.

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A gente se fala.

Março 3, 2008

Lisboa

A bee foi pro açougue, paquerou, caçou e ficou com a outra bee (não entendeu? veja o dicionário do sindicato: http://ohomemmoderno.wordpress.com/2008/02/09/o-beaba-do-sindicato/). Foram para sua casa, tiveram uma noite inesquecível, café da manhã na cama, e na hora de ir embora: “então tá, a gente se fala”.

“A gente se fala” é tão vago quanto “choveu no ano passado”, tão prático quanto apertar a descarga, tão ofensivo quanto tortura chinesa. É a pior resposta que um ser pode receber.

A bee preferia tanto mais um ‘tchau’, ou até mesmo ‘boa sorte’. Mas não, ganhou um “a gente se fala”. É igual a maldição do espelho quebrado, 7 anos de azar. Quebrou o espelho, agora não tem mais como colar os cacos. Tem que aprender a conviver com isso.

A gente se fala! ;-)

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O primeiro dia do futuro

Fevereiro 20, 2008

BsAs

- Parece que foi ontem, aos 16 deixava minha cidade natal, aos abraços de meu irmão mais novo, ele enxugando meu choro, minha tristeza e minha insegurança de ir morar em uma cidade muito maior.

No ano seguinte, deixava essa cidade e minha família para buscar sonhos que eu sempre quis e uma independência que eu não queria naquele momento.

Anos depois, botei minhas coisas no meu carro e segui pra maior cidade deste país, sem saber ao certo o que ia acontecer, sem planejar muita coisa, pra “conquistar o mundo”. Fiz amigos, conheci lugares, virei habitué, notívago, entrei pro sindicato, fiz loucuras, conheci gente maluca, viajei (até demais), colecionei histórias que ficarão para sempre aqui comigo.

Acabei descobrindo que os sonhos, às vezes, não precisam estar distantes, na categoria “sonhos impossíveis” e o futuro não precisa ser temido e também não é preciso um grande acontecimento para traduzir em grandes mudanças. Futuro é sinônimo de esperança.

A grande cidade ficou pra trás, e hoje, numa grande e maravilhosa cidade eu faço meu futuro cada dia que passa. Nada como um dia após o outro.

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Scottish kiss

Fevereiro 15, 2008

Pipe

- Eu estava em Edimburgo, Escócia, naquela primavera chuvosa. Entrei num Starbucks – adoro cookies de macadâmia com café gelado e muito creme. Subi as escadas e sentei numa poltrona branca. Guia de viagem na mão, café na goela.

A chuva lá fora não parava e muita gente tinha entrado. Eis que entra um Scottish guy legítimo, jeans bem justo, moletom com capuz, ares joviais. Me pergunta se eu sou turista. Pergunta óbvia, já que meu guia de viagem denunciava. Só para puxar papo, como sempre. Papo vai, papo vem. Viagens, trabalho, impressões sobre a cidade, futuro. E a chuva já tinha parado sem que notássemos.

Poucas pessoas lá no andar de cima, até que só restaram eu e meu novo amigo. De repente, chega perto de mim, e me pergunta o que ia fazer. Eu digo que ia pegar mais um café e depois seguir meu caminho. Retribuí a pergunta por educação, já que sua resposta não me interessava. Ele me responde com a maior naturalidade possível: agora, neste momento, eu queria mesmo um beijo.

Ora, na hora não entendi, ou fiz que não entendi, ou meu nervosismo não queria mesmo entender ou não queria dar prosseguimento àquela aventura. Só fui entender quando ele se aproximou ainda mais, aí não teve jeito. Scottish kiss, then Scottish bed. Nos despedimos, falei que no dia seguinte ia pra Glasgow e que provavelmente nunca mais nos veríamos.

No dia seguinte, de manhãzinha, na gare, Scottish kiss, o último beijo.

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Na calada da madrugada

Fevereiro 8, 2008

Coffee

- Em 2000 fui estudar no Canadá. A turma era multicultural, tinha muitos brazucas, suíços, japoneses, coreanos, e assim por diante. Mas entre tanta gente diferente tinha uma criatura que se sobressaía. Era o Kim.

Kim, um coreano finíssimo. Enorme, excêntrico, usava óculos fundo de garrafa e sempre estava com um sobretudo preto, sóbrio, quase um detetive. Ele tinha as histórias mais malucas, contava as coisas mais engraçadas, conhecia os lugares mais estranhos.

Não dá pra esquecer a segunda-feira em que ele chegou contando das suas andanças pela Church Street, uma experiência marcante para ele.

Toda semana, cada aluno tinha que preparar uma apresentação breve, sobre algo do seu país de origem. Eu já estava entediado de ouvir sobre o carnaval, futebol, samba, sushi, sashimi, os alpes, as montanhas, e assim por diante. Ouvia as apresentações com atenção, claro, e uma xícara de café bem forte, esperando com ansiedade a apresentação do Kim.

Kim era meio exotérico, meio de outro mundo. Ele falava sobre acupuntura, grafologia, quiromancia, sonhos. Ele chegou a ler a mão de todos, inclusive dos céticos. E assustava todo mundo como ele adivinhava coisas concretas sobre o passado de todo mundo. Ele me ensinou o básico da quiromancia e me ajudou a desvendar alguns sonhos que eu tinha.

Essa noite acordei às 3.30. Com um sonho exatamente como aquele que Kim havia descrito. Uma mulher desconhecida, alta, bonita, falando comigo em uma língua que eu não entendia. Ao redor, nada e ao mesmo tempo tudo. Um ruído insuportável…

“Someone trying to establish a connection. A mental connection. A conscious or unconscious state of his mind. Don’t be afraid, I’m not talking about dead people. He is real, but he may not know. And you also may not notice.”

Eu não consigo interpretar, quem seria, aquela hora? Boooooo…

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O dia em que uma calça rasgada quase apareceu num editorial de moda

Fevereiro 4, 2008

Orla

- No ano passado uma amiga veio me visitar aqui no Rio de Janeiro. Era sábado de manhã, um dia de maio enrolarado, mas com temperaturas amenas. Fomos tomar café-da-manhã no Cafeína, onde acabamos ficando quase 2 horas – sentados nos bancos de madeira, comendo, papeando. Na hora de ir embora – e aqui o banco de madeira deixa de ter o papel de coadjuvante – me levanto e ouço um barulho estranho.

Passo a mão na minha bunda e sinto que um pequeno duto de ar se abriu – por causa do banco de madeira (toda vez que vou pra lá, lembro dessa história, e me levanto com TODO o cuidado.

A minha sorte era que minha camiseta tampava o rasgo e não seria um furo que me faria voltar pra casa. É como uma modelo que cai na passarela, levanta e continua andando, como se nada tivesse acontecido.

Minha amiga e eu fomos fazer compras na Visconde de Pirajá e após compras básicas, ela queria um colar. Só fomos encontrá-lo numa barraca improvisada de uma vendedora de rua, simpatissíssima. Minha amiga, fina, combinou roupa colar e pulseiras que ela também acabou comprando.

Tem horas que as pessoas acabam fantasiando situações e só percebem depois que tudo acontece. E eu imagino que naquele dia nós estávamos na Ocean Drive mas tinham esquecido de nos avisar que estávamos na Vieira Souto.

Caminhávamos tranquilamente pela orla quando umas 6 pessoas nos abordaram. Disseram que estavam fazendo um editorial de moda e queriam permissão para nos filmar e fotografar. Confesso, já aconteceu muita coisa estranha enquanto eu andava na rua, mas isso pra mim foi novidade.

Olhei para minha amiga, ela olhou pra mim. E naquela hora eu pensei: bermuda furada. Ela deve ter pensado: colar e pulseira de camelô. Ela disse um sonoro ‘hoje não’. E eu, que estava me segurando para não rir, não consegui dizer nada.

Quem diria, uma bermuda furada e bijuterias de camelô fazendo sucesso em Ipanema.