Posts de Março, 2008

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Criando raízes

Março 26, 2008

Rio

- Quando criança, já quis ser importante. Mas nada de jogador de futebol, cantor ou ator. Queria conquistar o mundo, ser presidente da república ou, quem dera, ir pra lua como astronauta.

Passam se os anos, e os bissextos, e o Brasil já mandou o seu astronauta pro espaço, e a política perdeu seu charme.

Deixei pra trás o colo e a cozinha com cheiro de bolo de fubá da mamãe e fui conquistar a liberdade de ir, estar, conhecer, ficar e ir embora. Milhas acumuladas, cheiros e lugares diferentes, gentes e costumes, coisas das quais é difícil esquecer.

Mas chega uma hora, isso cansa. A saudade do bonsai que esquecera de regar, dos amigos que estão se divertindo tanto, indo aos seus lugares prediletos, comendo seus pratos favoritos, curtindo a balada do momento, andando naquela rua que fica florida quando o outono chega.

Você quer raízes, mas só tem asas. Hora de criar raízes.

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Mr. Scenic

Março 18, 2008

Rio

- Todo dezembro, no Rio de Janeiro, plantam uma árvore grande, pretensiosa e por vezes cafona, bem no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas. Pra alegria daqueles que acreditam que o espírito natalino traz paz e amor, pra felicidade dos ambulantes e pra tristeza dos motorizados.

Num desses dezembros, domingo, 10 da noite, resolvemos – eu e um amigo – ir jantar na Gávea. Trânsito parado, caótico, carros disputando centímetros. Eis que um Renault Scenic, ao fazer a conversão, encosta – de leve – no meu andante. Paramos num posto, desço do carro e vejo um pequeno amasso.

O dono do Scenic, educadamente interessante, deixa a esposa dentro do carro e vem pedir desculpas, e deixa o celular, para depois resolvermos. Obviamente, comentei com o amigo sindicalizado o quão “eu aceito” era o sujeito, e também me lembro dizer que o amassado era pouco significante, que não devemos nos apegar a coisas materiais (blá blá blá) e que provavelmente não ia nem ligar para o sujeito.

Passaram alguns dias e o número estava lá, gravado no meu celular, sem sequer um nome (somente um “Scenic”, para lembrar). Moderno, liguei para dizer que não era para se preocupar e que estava tudo certo, não ia mandar consertar.

Mr. Scenic achou muito educado, e disse que pelo menos a cerveja ficaria por conta dele. “Cerveja não tomo, mas caipirinha de saquê, com morango e limão sempre vai bem.” Mr. Scenic sabia muito bem como fazer um amasso.

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Ressaca moral

Março 17, 2008

Rio

Sexo ruim dá ressaca moral no dia seguinte. Sexo muito bom com uma pessoa fantástica – mas que você sabe que o caso não vai pra frente – também dá ressaca moral. Dizer certas coisas e ouvir certas coisas também dá ressaca moral.

Nesse quesito, existem 2 tipos de sindicalizados: aquele que não tem ressaca moral e aquele que tem. É impressionante como a cabeça das pessoas funciona diferente.

A cura pra uma ressaca alcoólica geralmente é simples: água, remédio, e de repente alguns dias sem beber. Só que pra ressaca moral a cura talvez não seja tão fácil assim. Abstinência? Se jogar? Procurar distração? Dependendo da solução, só piora.

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Uma (r)evolução

Março 13, 2008

Homer

Os anos passam e as pessoas acabam percebendo que a relação delas com o espelho não é a mesma. Que a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade de acompanhá-la. Ipod, iphone, ibook, itouch, wi-fi, bluetooth, megapixel, smartphone, mp3, mp4, mp5…

Dúvidas de que o Papai Noel ou o Coelho da Páscoa existem são substituídas por outras: por exemplo, o amor, seria ele mais uma invenção do mundo capitalista?

E ao mesmo tempo em que fazer amigos é mais difícil, você descobre o que é um amigo de verdade e isso vale mais do que milhares de amigos do clube quando era criança.

Você ganha responsabilidade, quer ter controle de tudo, aprende (ou não) a lidar com o dinheiro e com as pessoas, sabe o que agrada, e o que não agrada, e tudo acaba sendo rotulado. As situações acabam ficando parecidas, e no fim das contas quase todo mundo é igual.

Mas a vida é feita de surpresas e de pessoas misteriosas, como um baú trancado a 7 chaves e que você tenta abrir, como uma caça ao tesouro.

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O pobre e o prazer

Março 9, 2008

Xadrez

- Tem gente que diz que pobre que é feliz. Pobre faz churrasquinho com carne de segunda na laje; exibe o saquinho da Mr. Cat que ganhou da patroa como se fosse uma bolsa da LV; pega ônibus, trem e metrô pra pegar uma praia no domingo em Copacabana (claro, levando um isopor com cerveja barata e franguinho preparado na noite anterior). Pobre não faz análise. Pobre infringe todas as regras da modernidade. Mas pobre não tem vergonha de ser feliz.

Ontem fui jantar com um amigo num restaurante-lounge-bar-balada, conhecidíssimo na noite carioca e freqüentado por aqueles que se consideram o crème de la crème de la societé carioca.

Ambiente impecável, garçonete descolada (que aliás, bem notou que era a segunda vez que estivemos lá na semana e que aquele dia era um dia non-sindicato), comida de qualidade, bebida daquelas que um é muito pouco, gente bonita mas muito, MUITO estranha.

Entramos e aquilo parecia um velório. 3 mesas ocupadas (10 pessoas na primeira, 6 na segunda e um casal na terceira). Todos (sem exceçã0) olharam para nós quando entramos, me senti entrando na igreja. Só se ouvia a música ambiente e mais nada. A fisionomia das pessoas era deprimente: nenhum sorriso, nenhuma conversa acalorada, nada. Depois vieram mais 3 casais de turistas (3 homens e 3 mulheres), de Porto Alegre, e sentaram na mesa atrás da nossa. Os homens usavam camisa social xadrez (dentro da calça) e ficaram conversando sobre microinformática. Teve uma hora que eles ouviram o papo animado (impróprio para menores de 18) na nossa mesa e percebi que ficaram o resto da noite como espectadores.

Depois teve baladinha. Uma coisa meio Palais de Versailles, eu diria. Copo na mão, gente se olhando, caras e bocas, um luxo, um glamour, uma coisa, assim… aristocrática. Um ambiente meio sem sentimento, não tinha felicidade naquelas pessoas.

Deve ser uma merda ser pobre, não ter dinheiro pra uns prazeres que a gente cultiva com o tempo, mas ter dinheiro e não ter prazer é pior ainda.

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Um Projeto de Vida

Março 5, 2008

Obidos

O garoto mal entra na escola e pedem pra ele uma redação dizendo “o que vou ser quando crescer”. No almoço de domingo com a família, pais, tias, avós, todo mundo pergunta “o que você quer ser quando crescer?”.

Policial, professora, atriz, doutor. Respostas simpáticas e previsíveis são sempre bem vindas e até compreensíveis, mas quando o garoto solta um ‘padre, faxineiro, dançarino, vigia’, começa a pressão sobre o pobre coitado.

O garoto cresce, vai pra universidade (pra ser doutor, advogado ou engenheiro, sonho da família) e logo se vê entrando no mercado de trabalho, perguntado qual o seu projeto de vida.

Ser presidente do país? Casar? Ter filhos? Morar nas Bahamas? Abrir uma loja de esportes? Fundar uma ONG? Ter um apartamento nos Jardãns?

Não existe resposta certa, afinal cada um tem direito de querer o que quiser. E também não está errado se não houver uma resposta. Será que todo mundo tem que ter MESMO um Projeto de Vida, um plano pro futuro e perseguir esse plano?

O garoto cresceu, nunca soube ao certo qual era seu projeto de vida. Foi vivendo, as oportunidades foram aparecendo, e ele foi perseguindo aquilo que ele queria no momento. Sem arrependimentos.

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A gente se fala.

Março 3, 2008

Lisboa

A bee foi pro açougue, paquerou, caçou e ficou com a outra bee (não entendeu? veja o dicionário do sindicato: http://ohomemmoderno.wordpress.com/2008/02/09/o-beaba-do-sindicato/). Foram para sua casa, tiveram uma noite inesquecível, café da manhã na cama, e na hora de ir embora: “então tá, a gente se fala”.

“A gente se fala” é tão vago quanto “choveu no ano passado”, tão prático quanto apertar a descarga, tão ofensivo quanto tortura chinesa. É a pior resposta que um ser pode receber.

A bee preferia tanto mais um ‘tchau’, ou até mesmo ‘boa sorte’. Mas não, ganhou um “a gente se fala”. É igual a maldição do espelho quebrado, 7 anos de azar. Quebrou o espelho, agora não tem mais como colar os cacos. Tem que aprender a conviver com isso.

A gente se fala! ;-)